domingo, 28 de fevereiro de 2010

Um inverno novo

O chá no fogo te trouxe de volta. Mas ele nunca seria capaz de te fazer esquecer tudo que houve outrora. Não, nada poderia fazer disso um fato, ou um fardo.
As passagens continuam arquivadas na caixa antiga de lembranças, nunca visitada depois daquela tempestade. Os ouvidos ouvem mas não captam nenhuma mensagem. É sempre assim. E o veludo novo se rompe e já não se faz tão novo.
Que saudade ele estava do inverno cinza e renovador! Que saudade!
Tão ínfimo entre seus iguais que não consegue descobrir maneira saudável em se destacar. E, enfim, descobre que não existe nenhum motivo para se destacar sem causar algum prejuízo maior para si mesmo.
Pensamentos se sobrepõem, pessoas se sobrepõem e o mundo não parece ser aquele que sempre foi e a cada ano que passa isso se faz mais novo e mais surpreendente. A vida, afinal, nunca foi aquilo que se julgou ser, muito menos em um momento como esse.
O livro se abriu por vontade própria e se fez destacar a seguinte sentença "você nunca será o mesmo que foi no momento anterior a esse". E essa sentença se tornou todo o sentido da vida até completar os 80 anos joviais que agora não demonstram ter tanta aflição de proximidade do fim com que sempre houve.
Agora, aos 80, se sente revigorado e pronto para a nova vida que possa surgir no desconhecido.

sábado, 25 de julho de 2009

Ruídos

Tenho sido atacado, nesses dias escusos, por meu passado em demasia. Cada lembraça me carrega para o fato ocorrido como se eu o repetisse, mais que repetisse, como se o celebrasse novo com todas as expectativas e ansieadades do momento fatual. Relembro sentimentos, alguns bons, alguns ruins; relembro exatamente como era a vida de outrora como se me encontrasse a vivê-la. Ouço músicas que não se apresentavam aos meus ouvidos há anos.

Faz tanto tempo e nem sei mais se é vida mesmo esse atrido caminhar em vão.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Rascunho

Volto à rua da minha infância perdida. Procuro em toda reminiscência de memória da minha infância que não houve lembranças criadas pela imaginação dela que não há, procuro a todas as pessoas com quem não tive senão algum resquício de relação qualquer. Tanto não encontro o que não fui procurar quanto o que me não impediu de voltar à rua da minha infância perdida.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Café

Tardei em existir nesta segunda-feira sonolenta. Não fosse o café expresso forte e sem açúcar (sempre sem açúcar) de todas as manhãs ainda estaria imerso na indisposição do dia não querer ser dia, na procrastinação da existência nula.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Prosas para ninguém

Tenho escrito prosas a todos os desconhecidos do presente. Relembro lugares, situações distintas, expressões; e, em cada lembrança, analiso - com a riqueza de detalhes de que minha memória dispõe em alguns momentos - despido do fato das sensações da alma, as consequências da existência dessas pessoas impressas na minha personalidade de agora. Tento prever, obviamente sem sucesso, como serei amanhã e depois de amanhã.
Tenho escrito prosas a todos os seres da minha lembrança real e inventada.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O trem que corta a cidade

Vivo pelas manhãs ainda envolto à brisa torpe das madrugdas de embriaguez da alma. Ando pelas ruas iluminadas pelo sol voraz do dia novo, ruas cinzas - sempre cinzas - para os meus olhos. Com a visão turva observo todas as nuances de vidas outras que me cruzam o caminho.

O trem de ferro que corta a cidade baixa central atravessa e atrasa a toda a gente de obrigações diurnas.

Em cada olhar percebo uma alteração, um reflexo distorcido da minha e de tantas outra almas; alguns reflexos iluminados como a rua do dia novo; alguns outros alheios a tudo; reflexos obtusos da gente que se atrasa à passagem do trem, da gente que faz troça de observadores do mundo e os oculta; reflexos vis de toda a gente incapaz de aperceber a incoerência da própria existência.
Sobressai-se por vezes olhares soturnos carregados da angústia inconsciente do mundo a esvair-se.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Às segundas-feiras belas dos dias frios

Murmúrios de vidas expostos ao mundo, sons graves dos sonos desdormidos embalam e alegram as manhãs noturnas dos dias escuros. Mas não, não essa manhã, não; o sol não cansa e não descansa, a vida ruboriza-se dos dias de desapego passados como relâmpago; e todo o rubor se esvai com todos os sons das manhãs belas dos dias frios. As pessoas apenas existem alheias ao quando e onde acaba-se a vida.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

A vida onírica

então, era um apartamento térreo. Havia um salão na entrada com uma escada que descia para um quintal com uma piscina e um corredor que terminava no seu quarto, no meio do corredor havia um outro quarto. Eu cheguei com um pessoal sem face, seus pais estavam sentados à mesa com mais algumas pessoas também sem face. Eu fui ao quarto do meio do corredor, talvez para me trocar para a piscina, não lembro direito, mas não chegamos a nadar e nem eu a me trocar . Depois sentamos todos à mesa e ficamos conversando algo que também não lembro o quê.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Pescaria

"Vivemos, agimos e reagimos uns com os outros; mas sempre, e sob quaisquer circunstâncias, existimos a sós. Os mártires penetram na arena de mãos dadas; mas são crucificados sozinhos. Abraçados, os amantes buscam desesperadamente fundir seus êxtases isolados em uma única autotranscendência; debalde. Por sua própria natureza, cada espírito, em sua prisão corpórea, está condenado a sofrer e gozar em solidão. Sensações, sentimentos, concepções, fantasias – tudo isso são coisas privadas e, a não ser por meio de símbolos, e indiretamente, não podem ser transmitidas. Podemos acumular informações sobre experiências, mas nunca as próprias experiências. Da família à nação, cada grupo humano é uma sociedade de universos insulares."

As Portas da Percepção - Aldous Huxley

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Sobre a leveza dos dias

Tísico, pensava nos últimos versos das sonatas de natal, a letargia não lhe permitia pensá-las de maneira literária mas pensava-as e podia enxergá-las; qual um maestro desenhava suas formas no ar com o pouco de força que ainda restava...