sexta-feira, 29 de maio de 2009

O trem que corta a cidade

Vivo pelas manhãs ainda envolto à brisa torpe das madrugdas de embriaguez da alma. Ando pelas ruas iluminadas pelo sol voraz do dia novo, ruas cinzas - sempre cinzas - para os meus olhos. Com a visão turva observo todas as nuances de vidas outras que me cruzam o caminho.

O trem de ferro que corta a cidade baixa central atravessa e atrasa a toda a gente de obrigações diurnas.

Em cada olhar percebo uma alteração, um reflexo distorcido da minha e de tantas outra almas; alguns reflexos iluminados como a rua do dia novo; alguns outros alheios a tudo; reflexos obtusos da gente que se atrasa à passagem do trem, da gente que faz troça de observadores do mundo e os oculta; reflexos vis de toda a gente incapaz de aperceber a incoerência da própria existência.
Sobressai-se por vezes olhares soturnos carregados da angústia inconsciente do mundo a esvair-se.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Às segundas-feiras belas dos dias frios

Murmúrios de vidas expostos ao mundo, sons graves dos sonos desdormidos embalam e alegram as manhãs noturnas dos dias escuros. Mas não, não essa manhã, não; o sol não cansa e não descansa, a vida ruboriza-se dos dias de desapego passados como relâmpago; e todo o rubor se esvai com todos os sons das manhãs belas dos dias frios. As pessoas apenas existem alheias ao quando e onde acaba-se a vida.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

A vida onírica

então, era um apartamento térreo. Havia um salão na entrada com uma escada que descia para um quintal com uma piscina e um corredor que terminava no seu quarto, no meio do corredor havia um outro quarto. Eu cheguei com um pessoal sem face, seus pais estavam sentados à mesa com mais algumas pessoas também sem face. Eu fui ao quarto do meio do corredor, talvez para me trocar para a piscina, não lembro direito, mas não chegamos a nadar e nem eu a me trocar . Depois sentamos todos à mesa e ficamos conversando algo que também não lembro o quê.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Pescaria

"Vivemos, agimos e reagimos uns com os outros; mas sempre, e sob quaisquer circunstâncias, existimos a sós. Os mártires penetram na arena de mãos dadas; mas são crucificados sozinhos. Abraçados, os amantes buscam desesperadamente fundir seus êxtases isolados em uma única autotranscendência; debalde. Por sua própria natureza, cada espírito, em sua prisão corpórea, está condenado a sofrer e gozar em solidão. Sensações, sentimentos, concepções, fantasias – tudo isso são coisas privadas e, a não ser por meio de símbolos, e indiretamente, não podem ser transmitidas. Podemos acumular informações sobre experiências, mas nunca as próprias experiências. Da família à nação, cada grupo humano é uma sociedade de universos insulares."

As Portas da Percepção - Aldous Huxley

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Sobre a leveza dos dias

Tísico, pensava nos últimos versos das sonatas de natal, a letargia não lhe permitia pensá-las de maneira literária mas pensava-as e podia enxergá-las; qual um maestro desenhava suas formas no ar com o pouco de força que ainda restava...

Feriado

...ao menos a mixórdia dos dias desconexos e inacabados estava gradativamente a esvair-se.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Acometido por um sentimento de estar-se em débito com tudo, ansioso como se alguém esperasse uma resposta minha que não dou.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Amaldiçoo a atribulação diária que me estorva o espírito e me impede o sono enquanto é noite. Gozo pesaroso os quinze minutos que me permito dormitar com demasiado desconforto durante o dia.
Amaldiçoo mas não detesto nem desejo apartar-me a isso. O cansaço e a cefaléia interminável me impulsionam a mais cansaço e mais dor; e o esgotamento me impede de sentir e permite ignorar a tudo impetuosamente.
Oiço bem, entretanto, o som da minha derrota. Oiço não externamente, oiço com a sensibilidade minha que não há.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Tenho sono da vida mas não durmo, vivo sonâmbulo, vivo.
Respiro sempre os pesares da insônia involuntária, mórbida.

Durante o dia sou outro, sou comum; o sol queima e me cega os olhos da alma. Durante a noite não sou senão o sonho que nunca existiu. Protelo a vida onírica que nunca existirá.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

À Resignação

Vê o grande espetáculo etéreo da humanidade? Vê?
Sê, conquanto digno, parte importante disto – e daquilo que não é humanidade.

Não sou digno nem posso ver, entrevejo porém a lápide crespa que sobressalta-se acima de tudo. Mas não quero ver, nem entrever, nem ser digno; quero aspirar a tudo apenas.
À Resignação!